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Isabelle Stengers responde:

A prática médica científica […] procura inventar como é que o corpo doente poderia, apesar de tudo, fazer a diferença entre “verdadeiro remédio” e “remédio fictício”. Portanto, tem por efeito parasita, incomodo, […] a singularidade de “tomar verdadeira”, ou seja, “eficaz”, uma ficção […].

Quando a medicina científica pede ao público para partilhar os seus valores, pede-lhe, portanto, para resistir à tentação de se curar “por más razões”, e principalmente para saber fazer a diferença entre cura não reproduzível, dependendo de pessoas e de circunstâncias, e curas produzidas através de meios que fizeram as suas provas que, estatisticamente em todo o caso, são ativos e eficazes para qualquer um.

Mas por que razão um doente, que apenas está interessado na sua própria cura, aceitaria esta distinção? Não é “qualquer um”, membro anónimo de uma amostra estatística. Que lhe importa se a cura ou as melhoras das quais beneficiará eventualmente não constituem nem uma prova nem uma ilustração do tratamento que fez? […].

O funcionamento efetivo da medicina, definido por uma rede de obrigações administrativas, de gestão, industriais, profissionais, privilegia sistematicamente o investimento pesado, técnico e farmacêutico, vetor pretenso do futuro onde o obstáculo (curar-se por más razões”) será submisso.

O médico, que não quer as semelhar-se a um charlatão, vive no mal-estar a dimensão taumatúrgica da sua atividade. O paciente acusado de irracionalidade, intimidado a curar-se por “boas razões” hesita. Onde, nesta confusão de problemas, de interesses, de obrigações, de temores, de imagens, está a “objetividade”? O argumento “em nome da ciência” encontra-se em todo o lado, mas não para de mudar de sentido.”

Originally posted 2014-03-21 16:46:17.

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